Sia - Breath me
Crianças pequenas têm um vínculo muito mais forte com a essência humana e, ouso dizer, com o mistério divino. Elas sabem coisas das quais se esquecerão mais tarde, elas vêem coisas que ninguém mais pode ver. E aquela criança me viu, como ninguém mais poderia ter visto. Os olhos escuros me fitaram com naturalidade, no início. Um pouco assustados, analizando a estranha que sorria encantada para aquele rostinho bochechudo e angelical. Eu vi meu reflexo naqueles olhinhos de conta, imagens nítidas e simétricas na superfície de um lago negro. Uma estranha de olhos amarelos sorria de dentro do lago. Ou seria eu? Não sei, não reconheci de começo. Era como ver duas pessoas distintas convivendo no mesmo espaço ao mesmo tempo. Tão independentes quanto parte uma da outra.
Havia alguma coisa de triste naquele sorriso, tão triste que machucava. Eu podia ver força e fraqueza coexistirem com relutância, encanto e desencanto buscando equilíbrio.
O garotinho se mexeu, quebrando meu transe. Balbuciava sons próprios, suaves e agradáveis. Queria conversar comigo? Tentava, como qualquer criança, se comunicar. Tive a impressão de que, o que quer que quisesse me transmitir, era singelo e carinhoso, talvez até uma preocupação momentânea por uma estranha triste e confusa.
Eu sorri em retribuição ao gesto, agradecendo em silêncio e me vi novamente assustada com meu reflexo. A essência pela qual eu estivera procurando estava ali, perdida ao redor da minha imagem contraditória, como um vulto. Lutava para que eu a visse, implorava para que a deixasse sair.
Engoli em seco. Eu não queria, não deveria e certamente não poderia atender a esse pedido. Minha essência se revelava à meus olhos, doce, suave e cítrica, se a pudesse descrever como aroma. No entanto não é aroma, nem sabor, muito menos imagem. E eu apenas a chamo 'essência' para poder dar-lhe nome. Tudo isso aconteceu em segundos.
Sei que ninguém mais vai entender, mas talvez a beleza esteja exatamente nisso.
Agora, penso que seja fácil entender o porquê de eu gostar tanto de crianças. A essência infantil talvez seja a única que me conforta. É pura, é inocente, não julga, não critica, não tem preconceitos e não sente pena. É uma aura que alenta, doce e terrível em sua absoluta plenitude, o mais próximo que se pode chegar da essência divina, na minha humilde opinião.
Só ela compreende a tristeza contínua e sinuosa de um coração partido e a solidão complexa de uma alma perpendicular.
Talvez algumas teorias caiam por terra.
Quem sabe Deus seja isso, de certa forma: o olhar puro e singelo de uma criança desconhecida.
Crianças pequenas têm um vínculo muito mais forte com a essência humana e, ouso dizer, com o mistério divino. Elas sabem coisas das quais se esquecerão mais tarde, elas vêem coisas que ninguém mais pode ver. E aquela criança me viu, como ninguém mais poderia ter visto. Os olhos escuros me fitaram com naturalidade, no início. Um pouco assustados, analizando a estranha que sorria encantada para aquele rostinho bochechudo e angelical. Eu vi meu reflexo naqueles olhinhos de conta, imagens nítidas e simétricas na superfície de um lago negro. Uma estranha de olhos amarelos sorria de dentro do lago. Ou seria eu? Não sei, não reconheci de começo. Era como ver duas pessoas distintas convivendo no mesmo espaço ao mesmo tempo. Tão independentes quanto parte uma da outra.
Havia alguma coisa de triste naquele sorriso, tão triste que machucava. Eu podia ver força e fraqueza coexistirem com relutância, encanto e desencanto buscando equilíbrio.
O garotinho se mexeu, quebrando meu transe. Balbuciava sons próprios, suaves e agradáveis. Queria conversar comigo? Tentava, como qualquer criança, se comunicar. Tive a impressão de que, o que quer que quisesse me transmitir, era singelo e carinhoso, talvez até uma preocupação momentânea por uma estranha triste e confusa.
Eu sorri em retribuição ao gesto, agradecendo em silêncio e me vi novamente assustada com meu reflexo. A essência pela qual eu estivera procurando estava ali, perdida ao redor da minha imagem contraditória, como um vulto. Lutava para que eu a visse, implorava para que a deixasse sair.
Engoli em seco. Eu não queria, não deveria e certamente não poderia atender a esse pedido. Minha essência se revelava à meus olhos, doce, suave e cítrica, se a pudesse descrever como aroma. No entanto não é aroma, nem sabor, muito menos imagem. E eu apenas a chamo 'essência' para poder dar-lhe nome. Tudo isso aconteceu em segundos.
Sei que ninguém mais vai entender, mas talvez a beleza esteja exatamente nisso.
Agora, penso que seja fácil entender o porquê de eu gostar tanto de crianças. A essência infantil talvez seja a única que me conforta. É pura, é inocente, não julga, não critica, não tem preconceitos e não sente pena. É uma aura que alenta, doce e terrível em sua absoluta plenitude, o mais próximo que se pode chegar da essência divina, na minha humilde opinião.
Só ela compreende a tristeza contínua e sinuosa de um coração partido e a solidão complexa de uma alma perpendicular.
Talvez algumas teorias caiam por terra.
Quem sabe Deus seja isso, de certa forma: o olhar puro e singelo de uma criança desconhecida.
