começa a chover, mas você não arma a sombrinha. são duas quadras até o portão da frente, nada que uma corridinha não desse conta, mas você prefere caminhar bem devagar. você está se molhando, seu tênis está sujo de barro, seu cabelo começa a pesar, a despentear. por que você continua andando no mesmo ritmo lento e compassado? por que seus olhos vagam pelas poças d'água com tanta placidez?
quando começou a chover, você pensou na sombrinha vermelha no fundo da bolsa, pensou no resfriado que já estava lhe incomodando, pensou que ficaria ensopada... mas no mesmíssimo instante, viu que não havia motivo para não se molhar, ou para evitar um resfriado.
quando pensou em correr, pensou também em sentar na beira da calçada e continuar na chuva, esperando o tempo passar, esperando a chuva cessar. esperando. esperando.
quando viu as manchas escuras na jaqueta, pensou em esperar que se espalhassem o suficiente para preenchê-la, o barro não era assim tão ruim, nada ruim, e os fios de cabelo desalinhados pesando em seus ombros davam uma sensação agradável. confortável.
na verdade, tudo o que você queria era ficar ali no meio do caminho para casa, sentar-se na beira da calçada e fixar os olhos no asfalto molhado.
mas sua mãe ficaria preocupada, o telefone vibraria no bolso da mochila e você teria que atender. ou então não atenderia, e ficaria ali até que algum vizinho viesse perguntar se estava tudo bem. você não teria resposta, pois a pergunta não faria sentido. então você continuou andando até o portão, molhada e vazia, pensando em nada. tentando não pensar.
por mais que adiasse, chegaria perto demais e teria de entrar.
entrou. bateu na porta.
e tudo seguiu no automático, todas as perguntas, todas as respostas, as frases secas, a voz fria.
você fechou a porta do quarto, as cortinas, os olhos.
e dormiu. dormiu porque não aguentava ficar acordada. dormiu porque ficar acordada era difícil. dormiu porque, dormindo, estaria segura. a salvo de si mesma, a salvo da sombrinha vermelha fechada dentro da mochila, das ligações perdidas no celular, do vizinho preocupado.
fechar os olhos e abrir a mente.
abrir a mente e fechar os medos.
fechar os medos e abrir os sonhos.
sonhar e permanecer segura, durante todo o inverno.


