Alter egos nem tão seguros.

Sally caminhava os mesmos passos repetitivos, de volta para casa depois de um dia ordinário, perguntando a respeito de si mesma e o quão pouco compreendia, apesar de tão bem conhecer-se. Observava-se quase que externamente, buscando respostas novas para as velhas perguntas.
Timidez, ah! a velha timidez. Era possível que todos aqueles anos de superação conservassem ainda a velha e ingênua timidez?
A menininha de muitos pensamentos e pouquíssimas iniciativas permanecera com ela, não apenas em suas lembranças, continuava entranhada em sua personalidade, escondida em suas pálpebras e no canto dos lábios.
Todas as iniciativas e a eloquencia, tudo isso perdia-se de repente. Os gestos tornavam-se frágeis, tão sutis e tão ridículos, tão importantes e descartáveis, transformando segundos em horas intermináveis. E as palavras, as palavras que tanto respeitava e com naturalidade sabia utilizar, perdiam-se em frases bobas, sem muito sentido, saiam aos tropeços em uma voz quase trêmula.
Timidez, por que novamente a perseguia? Seria um aviso secreto, um sinal, talvez? Sinal de quê?
Talvez...
Não, não queria pensar muito mais sobre isso.
Nesse ponto, conhecia a si mesma e a todos os seus universos íntimos. Sabia quando parar. Sabia?
Deveria saber.
Acontecimentos recentes deveriam ser levados em conta. A timidez, a banal timidez era um sinal, sim, mas um mau sinal. Mau? Talvez...
Talvez não, era um mau sinal. O que a intrigava era este sinal anteceder a certos outros. Por que a timidez agora?
Maldita timidez.
Significava tanta coisa e tão pouco. Simples, porém muito mais complicada. Uma verdadeira contradição de pensamentos e, talvez... sentimentos?
Chegou ao portão de casa.
Sally, Sally, pare de pensar!, disse a si mesma. E tentou não pensar em mais nada.

And thats why...


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Everytime I fall asleep my dreams are haunted




And everytime I close my eyes I'm not alone




And everytime I cry I'm right back where you wanted




I try to drown you out so...




...Down goes another one.




.

Cuidado com o que deseja,

você pode ser atendido.

Você se deita e olha para o teto, como se pudesse enchergar o céu através dele. Se deixa devanear, vaga livremente em pensamentos.
Sem muitas esperanças, quase que por mera vontade, pede a qualquer entidade superior que lhe dê um sinal, lhe indique um caminho ou, pelo menos, alivie suas dores.
Infelizmente, não acredita que seja possível. Mas pede, de qualquer forma. Uma ajudinha, um pequeno impulso para encontrar a solução de seus problemas.
Um anjinho travesso está passando por ali justamente naquele momento. Ele ouve o seu pedido tristonho, fica comovido com a sua situação e, ingenuamente, resolve ajudar.
Você pede distração dos seus piores pensamentos, ele lhe dá muitos deveres em que se concentrar.
Você pede paz, ele abre seus olhos para a beleza das coisas simples.
E, finalmente, você pede distância. Se acreditasse na realização desse pedido, pediria especificamente que lhe afastassem da vida que leva. Mas o anjinho maroto não sabe dessa parte e faz exatamente o contrário, afasta de você o que lhe trás sofrimento.
Com a melhor das intenções, ele sai voando pelo paraíso, muito satisfeito consigo mesmo por ter ajudado uma pobre mortal que chorava.
É, seus pedidos se realizaram.
Agora você sabe apreciar as pequenas coisas, não tem tempo para meros problemas pessoais... e não tem por perto os fantasmas de dores passadas.
E mesmo assim, sente que alguma coisa está fora do lugar.
Você sente medo, medo da verdade que sabia e pela qual esperava desde o começo:
Algumas coisas se perdem pra sempre.
Fim.

hibernação.


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começa a chover, mas você não arma a sombrinha. são duas quadras até o portão da frente, nada que uma corridinha não desse conta, mas você prefere caminhar bem devagar. você está se molhando, seu tênis está sujo de barro, seu cabelo começa a pesar, a despentear. por que você continua andando no mesmo ritmo lento e compassado? por que seus olhos vagam pelas poças d'água com tanta placidez?
quando começou a chover, você pensou na sombrinha vermelha no fundo da bolsa, pensou no resfriado que já estava lhe incomodando, pensou que ficaria ensopada... mas no mesmíssimo instante, viu que não havia motivo para não se molhar, ou para evitar um resfriado.
quando pensou em correr, pensou também em sentar na beira da calçada e continuar na chuva, esperando o tempo passar, esperando a chuva cessar. esperando. esperando.
quando viu as manchas escuras na jaqueta, pensou em esperar que se espalhassem o suficiente para preenchê-la, o barro não era assim tão ruim, nada ruim, e os fios de cabelo desalinhados pesando em seus ombros davam uma sensação agradável. confortável.
na verdade, tudo o que você queria era ficar ali no meio do caminho para casa, sentar-se na beira da calçada e fixar os olhos no asfalto molhado.
mas sua mãe ficaria preocupada, o telefone vibraria no bolso da mochila e você teria que atender. ou então não atenderia, e ficaria ali até que algum vizinho viesse perguntar se estava tudo bem. você não teria resposta, pois a pergunta não faria sentido. então você continuou andando até o portão, molhada e vazia, pensando em nada. tentando não pensar.
por mais que adiasse, chegaria perto demais e teria de entrar.
entrou. bateu na porta.
e tudo seguiu no automático, todas as perguntas, todas as respostas, as frases secas, a voz fria.
você fechou a porta do quarto, as cortinas, os olhos.
e dormiu. dormiu porque não aguentava ficar acordada. dormiu porque ficar acordada era difícil. dormiu porque, dormindo, estaria segura. a salvo de si mesma, a salvo da sombrinha vermelha fechada dentro da mochila, das ligações perdidas no celular, do vizinho preocupado.
fechar os olhos e abrir a mente.
abrir a mente e fechar os medos.
fechar os medos e abrir os sonhos.
sonhar e permanecer segura, durante todo o inverno.

Eu conversei com Deus pelos olhos de uma criança.

Sia - Breath me


Crianças pequenas têm um vínculo muito mais forte com a essência humana e, ouso dizer, com o mistério divino. Elas sabem coisas das quais se esquecerão mais tarde, elas vêem coisas que ninguém mais pode ver. E aquela criança me viu, como ninguém mais poderia ter visto. Os olhos escuros me fitaram com naturalidade, no início. Um pouco assustados, analizando a estranha que sorria encantada para aquele rostinho bochechudo e angelical. Eu vi meu reflexo naqueles olhinhos de conta, imagens nítidas e simétricas na superfície de um lago negro. Uma estranha de olhos amarelos sorria de dentro do lago. Ou seria eu? Não sei, não reconheci de começo. Era como ver duas pessoas distintas convivendo no mesmo espaço ao mesmo tempo. Tão independentes quanto parte uma da outra.
Havia alguma coisa de triste naquele sorriso, tão triste que machucava. Eu podia ver força e fraqueza coexistirem com relutância, encanto e desencanto buscando equilíbrio.
O garotinho se mexeu, quebrando meu transe. Balbuciava sons próprios, suaves e agradáveis. Queria conversar comigo? Tentava, como qualquer criança, se comunicar. Tive a impressão de que, o que quer que quisesse me transmitir, era singelo e carinhoso, talvez até uma preocupação momentânea por uma estranha triste e confusa.
Eu sorri em retribuição ao gesto, agradecendo em silêncio e me vi novamente assustada com meu reflexo. A essência pela qual eu estivera procurando estava ali, perdida ao redor da minha imagem contraditória, como um vulto. Lutava para que eu a visse, implorava para que a deixasse sair.
Engoli em seco. Eu não queria, não deveria e certamente não poderia atender a esse pedido. Minha essência se revelava à meus olhos, doce, suave e cítrica, se a pudesse descrever como aroma. No entanto não é aroma, nem sabor, muito menos imagem. E eu apenas a chamo 'essência' para poder dar-lhe nome. Tudo isso aconteceu em segundos.
Sei que ninguém mais vai entender, mas talvez a beleza esteja exatamente nisso.
Agora, penso que seja fácil entender o porquê de eu gostar tanto de crianças. A essência infantil talvez seja a única que me conforta. É pura, é inocente, não julga, não critica, não tem preconceitos e não sente pena. É uma aura que alenta, doce e terrível em sua absoluta plenitude, o mais próximo que se pode chegar da essência divina, na minha humilde opinião.
Só ela compreende a tristeza contínua e sinuosa de um coração partido e a solidão complexa de uma alma perpendicular.
Talvez algumas teorias caiam por terra.
Quem sabe Deus seja isso, de certa forma: o olhar puro e singelo de uma criança desconhecida.

os sonhadores são os piores.

Nickelback - Gotta Be Somebody



Não me refiro às pessoas que sonham. Longe de mim considerar piores as pessoas que sonham.
Eu me refiro aos sonhadores, àqueles dos sonhos cheios de misteriosos significados. Àquelas pessoas que nunca aprenderam a sonhar, simplesmente já vieram ao mundo embaladas em cestos de ouro ao som de harpas de cristal, sobre a superfície de uma cascata de pérolas. Sim, essas pessoas tão incomuns e difíceis de encontrar. Pessoas que vivem de modo peculiar, embora sem levantar a menor suspeita. Tão normais quanto anormais. Aquelas pessoas que nascem perpendicularmente em relação à humanidade.
Um sonhador é aquela pessoa que tão simplesmente convive como qualquer outra. Mas não vive de maneira comum.
Talvez baste dizer que o sonhador tem uma alma maior que o corpo, e muitas vezes se expande além dos próprios limites.
O sonho de um sonhador não é um sonho comum. Cada sonho é um mundo que ele cria e possui dentro de si. Cada mundo tem suas próprias regras, seus próprios meios, suas próprias formas de vida. Dentro de cada um deles o sonhador tem uma vida diferente. Pode ser o vilão, ou o mocinho, dependendo do mundo em questão. Uma vez criado um mundo, ele nunca deixará de existir. Virão outros mundos, outras histórias, mas o sonhador nunca se esquece dos mundos que cria. Ele continua a visitá-los, mesmo que inconscientemente.
Os desejos de um sonhador não são meros desejos, são satélites ao redor de seus sonhos. Únicos, singelos e absolutamente necessários.
Um sonhador nunca pensa em distância em quilômetros. Ele nunca se perguntou por que o céu é azul, porque o mar é salgado, porque as rosas cheiram bem ou porque o fogo queima. Jamais passou pela sua cabeça querer as respostas de perguntas tão bonitas. Ele se contenta em apreciar a paisagem e degustar a vida.
Um sonhador vê em cada nuvem um anjo, em cada estrela uma fada, em cada pessoa uma alma. Não se contenta com olhos, sorrisos, penteados ou vozes, ele quer ver algo a mais, algo que ninguém mais vê. Uma coisa invisível e intocável, que diferencia e iguala todas as pessoas do mundo.
Um sonhador não quer um emprego, quer uma carreira.
Um sonhador não quer uma casa, quer um lar.
Um sonhador não sabe ser metade, tem que ser por inteiro.
Um sonhador não se contenta em gostar. Um sonhador ama, com todas as células do seu corpo, com toda força que possui dentro de si.
Um sonhador quer uma história de amor, não um romance. Quer magia e não promessas. Quer ter certeza do que não se pode provar.
Um sonhador não quer apenas alguém ao seu lado. Ele quer compartilhar todos os seus mundos.
Um sonhador quer a vida em sua essência mais perfeita, o amor em sua forma mais bonita.
O sonhador olha pela janela e não vê apenas o pôr-do-sol por de trás das montanhas. Vê tudo que existe de sublime no mundo brincando em cores no céu.
Mas um sonhador só pode amar e ser amado da maneira que precisa por um outro sonhador. E sonhadores são difíceis de encontrar.

me perdoem.

dizer isso com as minhas palavras me repugna, porque eu tenho nojo delas. foram as minhas palavras cheias de amargura e mágoa contidas, direcionadas a quem merecia sonetos de gratidão, que magoaram as pessoas que eu mais amo.
eu não me orgulho de nenhuma delas, eu as desprezo, pois elas são a prova irrefutável do meu crime.
mas eu não vou apagá-las, pra que possa sempre me lembrar do mal que esse meu orgulho fez.
eu não vou me justificar, o que eu fiz não tem justificativa, a não ser o fato de eu ser uma pessoa horrível.

sempre me orgulhei de fazer as coisas do jeito certo e quando me foi exigido um pouquinho mais de esforço pra isso, mais auto-controle, eu entrei em desespero e fiquei cega. eu fui fraca.
eu sempre fui muito apegada as frases brilhantes de Shakespeare e tem uma delas que nunca feaz tanto sentido pra mim quanto faz agora...

"A cólera é um cavalo fogoso; se lhe largamos o freio, o seu ardor exagerado em breve a deixa esgotada."

eu larguei o freio. eu tive escolha e escolhi o lado errado. assumo meus atos e aceito a sentença.
de que me vale esse orgulho idiota? onde ele tem me levado até hoje?
ele só me fez perder as pessoas maravilhosas que eu encontrei pelo caminho.
não mereço perdão, eu SEI que não mereço.
mas eu peço, humildemente, que me perdoem.
eu fui estúpida, me deixei dominar por todos os sentimentos ruins ao mesmo tempo. a culpa é toda minha.
eu amo vocês, por mais que possa parecer o contrário. por mais que possa parecer que eu não sou capaz disso, que eu sou um monstro. é assim que eu me sinto, é assim que eu me vejo agora.
mas daria qualquer coisa pra não ter feito o que eu fiz.

meu pedido é sincero, de todo o coração.
e estou disposta a ouvir o que quer que seja, vocês têm o direito de me odiar.
mas peço que me dêem a chance de ser melhor do que isso. me dêem a chance de ser uma amiga que mereça vocês.
porque se tem uma coisa que eu realmente aprendi com isso é que vocês merecem alguém muito melhor do que quem eu tenho sido.

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